04/02/2019

Seminário do Coren-MS trata do sofrimento no trabalho dos profissionais de enfermagem

O evento passou pelas cidades de Campo Grande, Corumbá, Aquidauana e Dourados e teve quatro palestrantes

O Coren-MS promoveu entre os dias 28/01 e 01/02, o Seminário “Sofrimento mental e organização do trabalho em enfermagem”. O evento passou pelos municípios de Campo Grande, Corumbá, Aquidauana e Dourados.

O evento foi conduzido pelo presidente do Coren-MS, Dr. Sebastião Junior Henrique Duarte e teve o apoio e presença dos seguintes conselheiros: Dr. Rodrigo Alexandre Teixeira, Cleberson Paião, Gismaire Aparecida da Costa Vacchiano, Dra. Nívea Lorena Torres e Carolina Lopes de Morais.

Durante o Seminário, foram trabalhados os seguintes assuntos: Defesas do indivíduo e Demandas de trabalho; enfermeiras na fronteira Brasil/Bolívia e Prevenção ao Suicídio. Entre os palestrantes estavam a Dra. Dórisdaia de Carvalho Humerez (Doutora em Enfermagem, com Residência em Psiquiatria); o Psicólogo Renisson Costa Araújo (mestre em Psicologia); o enfermeiro da Marinha do Brasil e mestrando do Programa de Estudos Fronteiriços da UFMS, Dr. Júlio Ricardo França e o capitão do Corpo de Bombeiros e capelão do Hospital Universitário da UFMS, Edilson dos Reis.

Defesas do indivíduo x Demandas de trabalho

As palestras de Renisson Araújo tiveram como tema a “Saúde Mental do Profissional da Saúde:
Quem cuida do cuidador?”. Nessas ocasiões, o psicólogo trabalhou especificamente com a saúde mental dos profissionais de enfermagem, focando no equilíbrio entre as defesas do indivíduo e as demandas do trabalho.

Renisson apresentou um grupo de risco a desenvolver patologias mentais e ideação suicida entre os profissionais de enfermagem. “Nas minhas pesquisas identifiquei que existe um grupo de risco para essa categoria: trata-se de mulheres, jovens, casadas, que realizam plantões noturnos, atuam em UTIs, possuem mais de um vínculo empregatício e com maior nível educacional”, relatou.

De acordo com o psicólogo, quando as defesas do indivíduo e as demandas de trabalho estão em desequilíbrio, podem influenciar o estilo de vida do profissional de enfermagem e, consequentemente, afetar a rotina familiar. “O fato do indivíduo ter que corresponder às exigências de trabalho da sua profissão e conciliar com responsabilidades familiares, que envolvem cônjuge e filhos, por exemplo, contribui para o desgaste relacional. Plantões noturnos e em fins de semana, ocupam, em muitas situações, o momento que o profissional poderia aproveitar com a família”, afirmou.

Renisson Costa Araújo, Psicólogo

O psicólogo falou ainda sobre a importância de um bom relacionamento no ambiente de trabalho. “Conflitos interpessoais no Trabalho é um dos principais fatores desenvolvedores de depressão em profissionais de enfermagem, podendo produzir irritabilidade, além de gerar conflitos e dificuldades interpessoais com os demais membros da equipe”, alertou.

Por fim, o psicólogo fez um alerta aos empregadores e profissionais de enfermagem. “A falta de reconhecimento, especialmente por parte dos gestores, pode diminuir o potencial do trabalho, desmotivando os profissionais. É importante a categoria entender que o fato do indivíduo estar bem adaptado a um ambiente doentio não é sinal de saúde”, finalizou.

Enfermeiras na fronteira Brasil/Bolívia

Durante a passagem do Seminário pelo município de Corumbá/MS, o enfermeiro da Marinha do Brasil, Dr. Júlio Ricardo França, palestrou a respeito da sua dissertação de mestrado em andamento, intitulada “Vivências de prazer e sofrimento no trabalho das enfermeiras na fronteira Brasil-Bolívia”. O enfermeiro analisa as enfermeiras que atuam nas Unidades Básicas de Saúde da Família (UBSF) de Corumbá/MS.

França apresentou um perfil de enfermeiras identificadas na sua pesquisa. “Fiz um levantamento com 20 enfermeiras, todas mulheres, com média de idade de 38 anos, sendo 55% casadas, 95% já realizaram alguma especialização; apresentam uma média de 8 anos de tempo de serviço e 4,5 anos na mesma função e/ou cargo; Desse total, 90% são concursadas no município e 45% já apresentaram algum problema de saúde relacionado ao trabalho no último ano”, apontou.

Dr. Júlio Ricardo França, enfermeiro da Marinha do Brasil

Na sua pesquisa, França identificou que essas enfermeiras obtêm prazer em suas atividades cotidianas nas UBSFS, mas a sobrecarga de trabalho e a falta de recursos para a área, gera situações de sofrimento. “Eu constatei que essas profissionais obtêm prazer através do cuidado com outro, característico da profissão. Porém, carregam uma carga de sofrimento, decorrente das precárias condições de trabalho”, identificou.

O enfermeiro da Marinha constatou que, embora existam estratégias defensivas individuais e coletivas para prevenir patologias mentais desses profissionais nessas unidades, o estilo de gestão associada ao sofrimento patogênico, leva ao adoecimento de enfermeiras.

Prevenção ao suicídio

A Doutora em enfermagem, Dórisdaia Humerez, tratou durante as palestras sobre o tema “Depressão e Prevenção ao Suicídio”. A palestrante apontou alguns fatores comportamentais que podem ser indícios de depressão “Um indivíduo pode estar deprimido em situações que apresenta lentidão nas atividades, desinteresse, apatia, dificuldade de concentração, pensamentos negativos, perda de capacidade de planejamento e alteração do juízo de valor”, elencou.

De acordo com Dórisdaia, trabalhadores da área da saúde, incluindo os profissionais de enfermagem, estão no grupo dos propensos a cometerem suicídio e aponta os fatores. “Essas pessoas lidam com o sofrimento humano, dor, tristeza, condições difíceis de trabalho e falta de reconhecimento profissional”, afirmou.

Dra. Dórisdaia Humerez

Dórisdaia relatou ainda as etapas que podem levar um indivíduo a cometer suicídio e classificou o fenômeno com multifatorial. “O ato suicida abrange a ideação suicida, plano, tentativa de suicídio e suicídio consumado. Não existe uma única explicação, pois são vários fatores associados, que nos convocam a prestar atenção às pessoas ao nosso redor”, apontou.

Seguindo na mesma vertente, o capitão do Corpo de Bombeiros, Edilson dos Reis, relatou durante a sua palestra, a importância do indivíduo com ideação suicida ser ouvido. “É importante todos entenderem que uma dor não compartilhada dói mais e que a pessoas que tentam ou consumam o ato suicida, estão pedindo socorro. Por isso, o ato não pode ser banalizado pela sociedade”, alertou.





  • BannerLateral/e-dimensionamento
  • BannerLateralAnjosEnfermagem
  • banner_anaiss1-e1349203955613
  • BannerLateralMunean
  • vagas enfermagem