30/01/2018

Presidente do Coren-MS se diz politicamente preparado e considera cargo uma missão

Com uma diretoria composta de profissionais que prestam serviço nos grandes hospitais do Estado, o enfermeiro Sebastião Junior assume Coren-MS.

Foto: Valetin ManieriCom uma diretoria composta de profissionais que prestam serviço nos grandes hospitais do Estado, o enfermeiro Sebastião Junior assume a presidência do Coren (Conselho Regional de Enfermagem)de Mato Grosso do Sul para o próximo triênio. Ele, aliás, começou no nível mais elementar da profissão, como auxiliar de enfermagem, pegou gosto pela coisa, decidiu ingressar na universidade e formou-se em 2000 pela UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), onde também foi líder de movimentos estudantis. Tornou-se professor universitário, doutor e obteve experiência no Conselho Federal como membro efetivo.

Ele reforça que de lá para cá não parou de se atualizar,inclusive fez pós-doutorado em Washington estudando políticas de saúde. Para ele, toda sua trajetória o preparou para estar no cargo, que passou a ocupar desde o primeiro dia de janeiro.Sebastião define o Coren-MS como missão e indica que a entidade seja decisiva para avanços na respeitabilidade da sua profissão.Com um trabalho focado no cumprimento da legislação e na fiscalização do exercício profissional, o enfermeiro afirma que, quando não se está contente com algo, você deve tentar mudar a situação. “Se você acredita que pode fazer melhor, deve se apresentar como solução”, diz.

‘Cumprimento da legislação é função do Coren’                                                 

O Estado – De onde veio a decisão para disputar as eleições do Coren?

Sebastião Junior – Eu estava insatisfeito com a situação da enfermagem sul-mato-grossense, que na minha opinião pode melhorar muito mais do que onde estávamos. O Estado tem 23 mil profissionais e 16 cursos superiores de enfermagem. Todo ano, um contingente muito grande é posto em um mercado de trabalho que não tem vaga para todos.Isso ocorre por falta de fiscalização, e fazendo cumpri-la, consegue-se mais inserção no mercado e melhora das condições. É o que desejamos! E já começamos este trabalho; nos primeiros dias já tive pauta com empregadores,com a vice-governadora, o secretário de Saúde do Estado, o de Campo Grande, sempre abrindo caminhos para que seja cumprida a principal função do Coren.

O Estado – O que é o conselho? Qual a sua função?

Sebastião Junior – O Coren é uma autarquia federal, um órgão que segue toda a regulamentação de uma entidade pública. Prestamos também informações ao Tribunal de Contas da União, e somos auditados por outros órgãos de controle. Em Mato Grosso do Sul, a entidade é considerada de pequeno porte,com 23 mil inscritos, mas a função é a mesma, que envolve receber demandas e denúncias. Por exemplo, um dos casos investigados aqui foi de uma clínica de aborto denunciada em reportagem. O conselho, tomando conhecimento disso,desencadeou uma fiscalização e a apuração ética desses profissionais.

O conselho também recebe demandas de instituições e de delegacias, para que sejam apuradas, e vamos analisar se há ou não indícios de infração ética ou até mesmo de um cometimento de crime. O Coren é ligado ao Conselho Federal,que junto com os Conselhos Regionais cria todas as políticas da profissão,regulamentando medidas disciplinares.No Coren buscamos fazer cumprir a legislação criada, porque fazendo isso a gente defende a sociedade. E como fazer cumprir? Buscando prováveis não profissionais, porque para exercer a profissão é necessário um registro, um prontuário com a vida profissional da pessoa. Se o indivíduo muda de Estado, é necessário fazer transferência, então nós defendemos a sociedade do não profissional e ainda do mau profissional.

O Estado – Por quem é composta a chapa eleita para o próximo triênio?

Sebastião Junior – A chapa foi construída por indicações de entidades e de lideranças. Como o Coren aqui é considerado de pequeno porte, isso limita o número de conselheiros em uma chapa. As chapas são independentes, mas na composição é sempre recomendável que se tenha pessoas com afinidades, porque elas trabalharão juntas. Nossa diretoria ficou assim: eu como presidente eleito em uma votação interna; como secretário, o enfermeiro Rodrigo Alexandre; e de tesoureiro,o Cleberson Paião, técnico em enfermagem.Os conselheiros efetivos são a enfermeira Virna Hildebrand e a técnica de enfermagem Gismaire Vacchiano.Jáe os conselheiros suplentes são os enfermeiros Alisson Fernandes, Hugo Henrique Lorentz e Rodrigo Melo, o técnico Aparecido Vieira e a auxiliar de enfermagem Carolina Lopes.

A maioria dos profissionais que compõem a diretoria é de Campo Grande e de Dourados. Falo de pessoas que trabalham em grandes hospitais, como o Hospital Universitário, a Santa Casa ou o Hospital Universitário de Dourados.

O Estado – O que não é cumprido hoje pelos órgãos de saúde de Mato Grosso do Sul?

Sebastião Junior – O que não é cumprido é o dimensionamento de pessoal, pois ainda existem instituições hospitalares que não têm enfermeiro 24 horas e isso fere a legislação, fere a lei nº 7.498, de 1986. Essa foi a legislação que criou quase tudo na nossa profissão e as categorias da enfermagem. Também existem outras atribuições que são restritas ao enfermeiro, por exemplo: a passagem de sonda, exame ginecológico, então o técnico tem os seus limites. Todas as ambulâncias do Samu (Serviço de Atendimento Médico de Urgência) deveriam ter enfermeiros, mas isso ainda não é uma realidade.

O Estado – Quais são as metas desta nova diretoria?

Sebastião Junior – São várias; a principal é firmar acordos para que a legislação seja cumprida e temos encontrado boa vontade dos gestores da Saúde de Campo Grande e do Estado. A principal frente que o conselho está discutindo com as entidades é o número de profissionais. Nós temos um cálculo de dimensionamento de pessoal que praticamente não é cumprido. Também tem a questão das horas de trabalho; o Coren possui muitos processos éticos em torno dos profissionais de enfermagem, e quando vamos estudá-los, atestamos que alguns erros foram cometidos por exaustão, por cansaço.

Conceder carga horária menor é também zelar pela sociedade e dar condição para que o profissional tenha recreação, lazer, pois eles trabalham com dor, sofrimento e morte. Vejo como necessário um escape para que se possa absorver toda a tensão, que é própria do ofício, porque existe na nossa rotina um desgaste físico e emocional muito grande. Buscamos benefícios como jornada mais adequada e salários mais justos, porque a gente já vê que em outras categorias isso deu certo e esse é o carro-chefe: a defesa do profissional de enfermagem, não no sentido bairrista nem classista, mas sim como algo que é necessário no momento. Nós evoluímos muito, todavia ainda precisamos de mais para que ninguém chegue no fim da sua vida profissional doente.

O Estado – Como você vê a formação desses profissionais no Estado?

Sebastião Junior – Nós temos um problema hoje na enfermagem, que se refere à formação. Existem excelentes universidades e instituições, porém algumas não cumprem com rigor o que é estabelecido pelo Ministério da Educação, e acabam comprometendo a qualidade do profissional da enfermagem. A gente não tem muita opção para errar; são seres humanos, então, se você não está devidamente preparado, falha. Lidamos com a preservação e o cuidado de vidas.

O Estado – O Coren se preocupa com essa atualização dos profissionais?

Sebastião Junior – São inúmeros os pedidos no Coren para qualificações, para cursos, e nós atendemos na medida do possível. Até porque também não temos recursos para isso, porém tentamos atender a demanda da melhor forma e damos atenção a cada um que nos procura. Acho importante esse papel pedagógico do Coren-MS.

O Estado – A questão salarial é importante para lutas desta gestão?

Sebastião Junior – Para mim eles [os profissionais da enfermagem] são heróis. O valor do trabalho entregue não se compara com o que cada um ganha. Quando eu me formei em 2000 a média salarial era de dez salários-mínimos, e hoje temos enfermeiros trabalhando por três ou até menos. Então você vê que em 15 anos houve uma queda grande, que pode ser reflexo do país, que enfrenta dificuldades financeiras, ou pelo crescimento muito rápido e desordenado da profissão. Nossa luta é para que o mercado absorva quase todos os profissionais, fazendo cumprir as legislações do Conselho Federal. Pretendemos nos unir com sindicatos e associações em defesa dos direitos da categoria, nesse assunto tão importante que é a questão salarial.

O Estado – Como você vê a saúde de Mato Grosso do Sul hoje? E o atendimento do SUS (Sistema Único de Saúde) no Estado?

Sebastião Junior – Existem lugares que são modelos de saúde pública aqui no Estado. Elenco Campo Grande, Três Lagoas e vários outros municípios. É nesses lugares que temos de aprender. A Capital trabalha com protocolos emergenciais, e a equipe de enfermagem tem papel importantíssimo nisso. Já o SUS para mim é um grande modelo e uma grande política de inclusão social. Toda a sociedade depende dele, até mesmo quem não frequenta a Unidade Básica de Saúde. Estamos vivendo doenças emergentes como, por exemplo, a febre amarela, que é da saúde pública e afeta a sociedade como um todo. Vale lembrar que quem lida com esse enfrentamento é o Sistema Único de Saúde.

Em Campo Grande o maior hospital é um lugar 100% SUS. Ali diariamente são feitas cirurgias cardíacas, onde se atende pessoas do interior, que não pagam nada pelo seu tratamento. Eu sou defensor do SUS e acredito nele. Como todos os modelos, ele enfrenta problemas de financiamento, mas acredito que, se o recurso fosse destinado e aplicado corretamente, tudo funcionaria como tem de ser. O SUS é um bom sistema, ele só precisa ser tratado com a seriedade que é requerida. O compromisso social é algo que falta e não falo de uma forma pontual, mas sim geral.

O Estado – Quando acontece a cerimônia de posse?

Sebastião Junior – Desde o primeiro dia do ano já estamos trabalhando, mas a solenidade de posse acontece no dia 2 de fevereiro, às 19 horas, na Câmara Municipal. A nossa gestão vai até 31 de dezembro de 2020.

Nome: Sebastião Junior Henrique Duarte
Data de nascimento: 12/9/1974
Profissão: Enfermeiro

Por Julia Kaifanny Paiva – Jornal O Estado

(Foto: Valentin Manieri)





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