21/07/2017

Enfermagem é uma das principais classes a sofrer com o suicídio; diálogo pode ser a solução

Único grupo de pesquisa e combate ao suicídio no Brasil, grupo liderado pelo capelão Reis está há 25 anos no combate ao mal

O abandono, medo, solidão, sentimento de culpa, a desestrutura familiar e uma infância reprimida por dor ou abuso são elementos que aliados aos problemas profissionais, podem resultar em depressão, que em um nível elevado pode ser o gatilho para um suicídio.

Essa é uma tese de mais de 25 anos de pesquisa, do único grupo do Brasil que tenta aconselhar e impedir que mais casos de suicídio sejam registrados no País. Situado em Campo Grande/MS, mais especificamente no setor de “Capelania” do Hospital Universitário, o grupo é liderado pelo capelão e capitão do Corpo de Bombeiros, Sr Edílson dos Reis.

Nesta semana, a técnica em enfermagem, sra Rosimeire Leite Vieira Pereira, 49 anos, cometeu suicídio. Foram 14 anos dedicados ao HU, mais um caso silencioso, inesperado e que entristece toda a classe.

“O suicídio não está isolado. São várias coisas que interagem de forma complexa que levam ao desejo de morrer. Muitos associam a profissão como causador, mas geralmente é um conjunto de situações que leva a pessoa a isso, como o abandono, medo, solidão, culpa, instabilidade emocional, desestrutura familiar, infância reprimida, seja por dor, ou abuso”, ressalta o capelão Reis.

O capelão ressalta que a classe da Enfermagem tem um agravamento a mais, devido a vários pontos. “Quando se fala na enfermagem, identificamos várias questões. Por exemplo, essa classe não possui planos de carreira, entrou técnico ou enfermeiro, vai morrer da forma que entrou. É uma categoria que não tem reconhecimento merecido, tanto pela sociedade, quanto pelos outros profissionais de saúde. É um profissional visto como alguém que vai executar uma ordem de alguém e não é assim. A enfermagem é uma ciência latente, porem isso não tem reconhecimento”, lista o capelão.

Outro fator fundamental citado pelo conselheiro é a insatisfação com o salário, que é defasado e aliado a outras rotinas, compromete mais ainda a auto estima da Enfermagem. “Além do salário defasado, vem a sobrecarga de trabalho, a responsabilidade e a cobrança em cima desse profissional, que ainda sofre com o desajuste de horário para realizações interpessoais, dele como pessoa e com seus familiares. São noites de plantões, festas de fim de ano e o profissional está lá sempre, na mesma rotina, só mudam os pacientes”, lamenta Reis.

Segundo Reis, esse acúmulo de carga para a pessoa, que já tem um desgaste emocional e já vem de uma pré-disposição de sofrimento, é o gatilho para o suicídio.

Por ser silenciosa e gerar vergonha para quem sofre, se não identificada por familiares, amigos e colegas de trabalho, o suicídio acontece sempre inesperadamente. “Muitos acham que o suicídio é para chamar atenção, realmente é, mas atenção de alguém que precisa de ajuda. Ações simples, como cartazes, folders, palestras e seminários em hospitais podem evitar e conscientizar para eventuais casos. Antes da punição, um diálogo fraterno resolve muito mais. Tem que haver uma linha de diálogo, entre chefia e quem está abaixo, precisamos de mais ações de prevenções de suicídio, mais ações de valorização do profissional e da categoria, são acessíveis e podem evitar um dano maior. Vale lembrar que aquele que está na chefia também pode sofrer pressão de quem está acima também”.

Atualmente o grupo da capelania oferece cursos e palestras duas vezes por semana, com palestras de 30 minutos, com direito a dispensa dos profissionais da Enfermagem do HU.

A capelania do HU está organizando um seminário que ocorre nos dias 31 de agosto e 1º de setembro no teatro Glauce Rocha, é o “XI Seminário de Promoção a Vida & Prevenção ao Suicídio”. O evento contará com palestras como “Origem e atuação da escuta amiga”, “Doenças Mentais e a Ideação Suicida: do diagnostico ao tratamento”, “Cartas e bilhetes deixados:  e seu significado” E “Adolescência e seus conflitos: auto mutilação, bullying, ideação e desejo suicida”.

Toda programação é gratuita e aberta à sociedade em geral.